O Cocheiro do Além
O dia se verte em noite ao som da melodia de uma gélida brisa. Sentindo este frio não consigo deixar de pensar que, se estivesses aqui, poderias me tomar em teus braços e me aquecer com o calor de teus beijos.
Nestas horas me vens a mente sem que eu possa impedir, tudo me lembra a ti. Teus vestidos ainda conservam teu cheiro, doce e envolvente como o aroma da primavera. Tua penteadeira continua ali, no mesmo canto, com aquelas presilhas de borboleta que tanto adoravas. Lembras-te do divã? Nele te recostavas e ria de minhas piadas desprovidas de graça ou sentido.
Mas não quero pensar nestas coisas, são por demais dolorosas.
Fui descendo pela rua Seis em direção a taberna Rio Caronte; ela tem sido minha companheira de angústia e solidão. De longe ouvi a música proveniente de alaúdes, harpas e flautas e, com se espera de toda taberna que se preze, as conversas exaltadas dos clientes. Lá dentro estava uma algazarra. Eram facilmente reconhecidos os trabalhadores da ferrovia e das minas que, depois de um duro dia de trabalho, embriagavam-se na cerveja e na dança de lindas mulheres. Por um segundo pensei ver o início de uma briga.
Sentei-me junto ao balcão, onde estava mais tranquilo.
- Dê-me uma dose de seu melhor conhaque, meu jovem.
Pedi a um garoto que parecia não passar dos dezesseis anos.
Foi-se a primeira dose ... a segunda .... a terceira ... a quarta. Foi assim até eu perder a conta, ou melhor, a consciência.
" - Ah, minha amada Serena, por que me deixou?
- Eu não tive escolha, meu querido. Nenhum de nós poderia evitar esta armadilha do destino.
- Saiba que te amo, Serena. Foste e sempre serás o amor de minha vida.
- Frederico, mesmo que eu esteja no túmulo, meu amor lateja dentro de ti e viverá eternamente em teu coração. "
- Ei, senhor, acorde! - o jovem garçom me dizia, irritado, enquanto me sacudia. - Nós já vamos fechar!
Vaguei sem rumo pelas ruas, perdido na dor de minhas lembranças. Por um instante, ela me pareceu tão real .... quase poderia tê-la tocado, mas não passou de um sonho. Ó Deus, quanta crueldade.

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