Powered By Blogger

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

                 Eu estava tão absorto em mim mesmo que demorei a perceber a neblina que caía sobre a cidade. Não enxergava quase nada, mas pude distinguir o som de cascos batendo em pedra. Seria uma carruagem?
                  Aos poucos ela foi entrando em meu campo de visão. Poderia se dizer que estava coberta de petróleo, de tão escura que era. Um cavalo tão negro quanto o carvão a puxava. O mais estranho era o cocheiro, usava uma capa da cor da noite que impedia que se visse seu rosto.
                  O cocheiro, o cavalo e a carruagem pareciam não ser deste mundo.
                 - Estás com algum problema, Sr. Frederico?
                     Disse-me o estranho com uma voz tão fria que me gelou o coração.
                    Eu sabia que não devia sair contando minha por aí a qualquer um, mas sua voz soou tão hipnótica que acabei por contar tudo:
                    - Eu perdi minha esposa, Sr, Cocheiro. - comecei, minha voz embargada pela emoção; um nó me subiu à garganta. - Descansa embaixo da terra aquela que me deu sentido à vida ... o meu tesouro mais precioso.
                      Só depois de terminar, eu vi o que tinha feito. Estaria eu enfeitiçado?
                    - És um demônio, Sr. Cocheiro?
                        Perguntei tentando manter o corpo firme, mas ouvi o tremor em minha voz.
                    - Não Sr. Frederico, eu não sou um demônio.
                        Respondeu-me, mas antes que eu pudesse esboçar qualquer reação, ele continuou:
                    - Sou unicamente um viajante de Eras. Agora chega de perguntas e entre na carruagem. Tua mulher não há de estar muito longe, em breve a alcançaremos.
                        De novo aquele tom hipnótico, não pude fazer nada se não entrar.
                        Se havia alguma dúvida de que o cocheiro, o cavalo e a carruagem não eram deste mundo, ela desapareceu por completo quando entrei e fechei a porta. Uma paz sobrenatural me tocou o espírito ... aquietou minha alma a tanto tempo atribulada. Meus olhos foram se fechando devagar, mas antes que se cerrassem por completo, eu compreendi ...
                         Acolhi docemente o sono da morte.

Itamar Felipe

                

Nenhum comentário:

Postar um comentário