Aos poucos ela foi entrando em meu campo de visão. Poderia se dizer que estava coberta de petróleo, de tão escura que era. Um cavalo tão negro quanto o carvão a puxava. O mais estranho era o cocheiro, usava uma capa da cor da noite que impedia que se visse seu rosto.
O cocheiro, o cavalo e a carruagem pareciam não ser deste mundo.
- Estás com algum problema, Sr. Frederico?
Disse-me o estranho com uma voz tão fria que me gelou o coração.
Eu sabia que não devia sair contando minha por aí a qualquer um, mas sua voz soou tão hipnótica que acabei por contar tudo:
- Eu perdi minha esposa, Sr, Cocheiro. - comecei, minha voz embargada pela emoção; um nó me subiu à garganta. - Descansa embaixo da terra aquela que me deu sentido à vida ... o meu tesouro mais precioso.
Só depois de terminar, eu vi o que tinha feito. Estaria eu enfeitiçado?
- És um demônio, Sr. Cocheiro?
Perguntei tentando manter o corpo firme, mas ouvi o tremor em minha voz.
- Não Sr. Frederico, eu não sou um demônio.
Respondeu-me, mas antes que eu pudesse esboçar qualquer reação, ele continuou:
- Sou unicamente um viajante de Eras. Agora chega de perguntas e entre na carruagem. Tua mulher não há de estar muito longe, em breve a alcançaremos.
De novo aquele tom hipnótico, não pude fazer nada se não entrar.
Se havia alguma dúvida de que o cocheiro, o cavalo e a carruagem não eram deste mundo, ela desapareceu por completo quando entrei e fechei a porta. Uma paz sobrenatural me tocou o espírito ... aquietou minha alma a tanto tempo atribulada. Meus olhos foram se fechando devagar, mas antes que se cerrassem por completo, eu compreendi ...
Acolhi docemente o sono da morte.

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